3.7.08

Livro: A vertigem da Descolonização do general Gonçalves Ribeiro

O general Gonçalves Ribeiro, seguindo o exemplo do seu colega Silva Cardoso, deu-se ao trabalho de escrever 450 páginas onde tenta de uma maneira inteligente contar a sua versão da Traição da Descolonização no livro “A vertigem da Descolonização – da agonia do exôdo à cidadania plena”, que a Editorial Inquérito deu à estampa em 2002.
É curioso como passados tantos anos, surgem os militares da traição abrileira de 1974 a escreverem e reescreverem os factos que a História julgará. Será o PDI (Peso da Idade) ou o PDC (Peso da Consciência) que os atormenta ou será mais uma forma de ganhar mais uns dinheiritos? Seja o que for, factos são factos e este livro do general Gonçalves Ribeiro é um facto, se bem com pouca relevância histórica.
O então tenente-coronel Gonçalves Ribeiro fez a comissão militar no Comando-Chefe das Forças Armadas, entre Agosto de 1972 e Agosto de 1974 em Angola.
Entre Agosto de 1974 e Janeiro de 1975, foi secretário de Estado da Administração Territorial, no governo provisório de Angola.
Fez parte da delegação “portuguesa” nas negociações do Acordo do Alvor, em Janeiro de 1975.
Desde os fins de Janeiro até 10 de Novembro de 1975, foi secretário-geral do Alto-Comissariado e nessa função coordenou e dinamizou a chamada Ponte Aérea, finalizada em 31 de Outubro, prolongando-se até 3 de Novembro bem como a Ponte Marítima concluída a 9 de Novembro.
No seu regresso a Portugal Continental, em meados de 1976, exerceu o cargo de Alto-Comissão para os Desalojados entre Setembro de 1976 e Julho de 1979, mês da sua extinção.


Ora, o sr. general esteve entre Agosto de 1972 e meados de 1976, isto é, durante quatro anos em cargos de responsabilidade político-militar e nada fez para alterar o rumo da traição, do crime de lesa-Pátria, do crime da descolonização e vem ao fim de 26 anos conta a sua “experiência” em que tenta manter-se numa posição ambígua, apoiando Deus e o Diabo.



Deixo aqui as transcrições que considero relevantes e condenadoras do processo da Descolonização em que o próprio colaborou na qualidade de secretário de Estado da Administração Territorial, no governo provisório de Angola e integrando a delegação “portuguesa” nas negociações do Acordo do Alvor, em Janeiro de 1975.

“Sem a acção desagregadora de Portugal, no concreto contexto histórico em que se desenvolveu, acompanhada por um imenso esforço militar, missionário, científico e diplomático, ao longo de séculos, não existiriam de todo nem Angola, nem Guiné, nem Moçambique, nem Timor… nem o Brasil, bem como Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe.” (p. 25)
“A situação militar encontrava-se controlada, sendo notória uma real diminuição de actividade da FNLA no norte e muito esporádicas as infiltrações do MPLA em Cabinda, a partir do Congo ex-francês (Brazzaville). No leste, constava-se não só uma sistemática redução de acções de guerrilha do MPLA, como também a inexistência de quaisquer confrontos com a UNITA.
A actividade económica, por seu lado, encontrava-se em forte expansão, fomentada e sustentada pelo entusiasmo e pela confiança dos agentes económicos quer internos, quer externos.
A estratégia da contra-subversão, de natureza global, contemplando áreas diversas – económica, diplomática, psicológica e militar – estava tendo franco sucesso em Angola, para o que muito havia contribuído não só o desafogo económico do território e o espectacular desenvolvimento da rede viária, mas também a adequação e a eficácia da manobra militar de contra-guerrilha, oportuna e sistematicamente reajustada desde Julho de 1961 (retoma de Nambuangongo). Não menos importante foi persistente e endémica hostilidade entre o MPLA, a FNLA e a UNITA, nomeadamente no leste, e bem assim a redefinição da orgânica da contra-subversão em 1971” (pp. 33/34)
“A população portuguesa de raiz europeia ou os seus descendentes vivia na convicção de que qualquer um daqueles territórios era também a sua casa, sentimento ainda reforçado pela política ultramarina prosseguida desde sempre pelo regime deposto em 25 de Abril de 1974, e, muito especialmente, pelo teor do texto constitucional de 1933.
Um outro factor de extrema importância condicionava, porém, tudo e todos: o colossal esforço de guerra que vinha persistindo desde 1961, logo arrastando-se por 13 longos anos.
Este colossal esforço de guerra distribuído pelas suas principais vertentes – enorme complexidade logística, vasta e sensível administração de pessoal e diversificada actividade operacional – ainda hoje causa admiração e perplexidade a nível internacional (…)”(pp. 76/77)
“Relativamente aos 13 anos de guerra – que se estenderam a 14 anos por, em 1975, ainda terem morrido soldados portugueses em Angola – uma tão longa duração, verdadeiramente singular na história das guerras modernas, estava-se constituindo como um fardo penoso, insuportável e trágico para inúmeras famílias portuguesas.
Apenas nos 3 Teatros de Operações – em Angola, desde Maio de 1961, na Guiné, a partir de Maio de 1963, e em Moçambique com início em Novembro de 1964 – estiveram empenhados 1.400.000 militares, dos quais cerca de 800.000 mobilizados na então metrópole (Portugal), na sua grande maioria soldados ou sargentos e oficiais milicianos.
De 1961 a 1975, registaram-se 8.831 mortos, sendo 4.280 em combate e 4.551 por outros motivos, e cerca de 30.000 feridos, dos quais perto de metade em combate e os restantes em acidentes.” (p. 53)
“Sob o ponto de vista militar, a actividade conduzida pelo MPLA no leste de Angola era praticamente nula e as incursões em Cabinda, a partir do Congo-Brazzaville, não suscitavam preocupações de maior. Apanhado de surpresa pelo 25 de Abril, aliás como a FNLA e a UNITA, o MPLA dirigido por Agostinho Neto passou a utilizar as armas que estavam ao seu alcance, as bem conhecidas técnicas de Agit-Prop (Agitação e Propaganda) de qualquer partido comunista, contando naturalmente com a solidariedade internacionalista dos partidos irmãos espalhados pelo mundo, em especial o PCP/Partido Comunista Português, o PCUS/Partido Comunista da União Soviética e o Partido Comunista de Fidel de Castro.” (p. 59)
“A orgânica final da contra-subversão veio a ser aprovada em reunião de Conselho Provincial de Contra-Subversão, a 19 de Agosto de 1971, sendo o Comandante-Chefe o General Costa Gomes” (p. 34)
“Na área militar, começaram a definir-se e a implantar-se as estruturas locais do MFA. Estas eram preenchidas por representantes eleitos desde as unidades até aos órgãos de chefia e direcção, segundo uma metodologia que, francamente, me escapou. A vasta maioria de tais representantes era composta por capitães e majores, incluindo também alguns oficiais milicianos.
As sessões de esclarecimento nos diversos níveis do aparelho militar passaram a ser frequentes.
No ínterim, chegava a Luanda, em 5 de Maio, de onde regressou a Lisboa, dois dias depois, o General Costa Gomes.
(…) Participei na reunião do Comando-Chefe, onde afirmou que a missão das Forças Armadas Portuguesas em Angola se mantinha inalterada e proferiu declarações peremptórias de que a luta prosseguiria até ao momento em que os guerrilheiros depusessem as armas e aceitassem transformar-se em partidos políticos e ainda que em parte alguma, de Cabo Verde a Timor, se aceitaria que grupos ou raças impusessem soluções para os problemas políticos emergentes do 25 de Abril fora do jogo democrático.
Adicionalmente e como que a recordar-se da sua experiência de Comandante-Chefe, comentou que os guerrilheiros não dispunham do apoio das populações ao contrário do que se dizia e era propalado.” (pp. 54/55)
“Segue-se uma vaga de prisões arbitrárias de civis e militares, sem culpa formada nem julgamento, decidida pelas estruturas mais radicais do MFA, publicamente apoiada por toda a esquerda comunista e extrema-esquerda, levada a efeito por militares do COPCON (Comando Operacional do Continente) comandado por Otelo Saraiva de Carvalho, com a aquiescência (senão intervenção directa) do Primeiro Ministro e a tácita concordância do General Costa Gomes, tudo no pressuposto, veiculado por alguma comunicação social, de que a manifestação da maioria silenciosa encobriria o ensaio de um golpe de Estado previsto para meados de Setembro.
Em Angola senti da parte do Almirante Rosa Coutinho uma evidente satisfação por tudo o que acontecera em Portugal, dando a ideia de se libertar de um indesejável e incómodo colete de forças. Aquele sentimento, com laivos de euforia, deu origem, num prazo curtíssimo, a ordens preparadas pelas estruturas locais do MFA, logo com a óbvia aquiescência do Presidente da Junta Governativa, que levaram à detenção e envio para Portugal de um número indeterminado de civis e militares. Na mesma altura, começou a circular uma misteriosa lista contendo nomes de personalidades angolanas que eram acusadas, entre outros delitos, de sabotagem económica, de forças da reacção, de subversão do processo de descolonização etc., etc… Soube-se que muitos nem detidos foram porque, amedrontados, desconfiados ou precavidos abandonaram o território.” (p. 117)
“Em Luanda e no Palácio do Governo tornou-se mais evidente a já endémica crispação que existia no seio da Junta Governativa, posicionando-se em campos opostos, por defenderem projectos não conciliáveis, de um lado o Almirante Rosa Coutinho, acompanhado pela eminência parda Major Emílio da Silva, e, do outro, a dupla General Altino de Magalhães/Brigadeiro Silva Cardoso, surgindo a meia distância entre as duas correntes o Comodoro Leonel Cardoso (estes três últimos oficiais haviam entretanto sido graduados nos postos imediatos).
Igualmente a notória foi a progressiva influência de um núcleo duro constituído à volta do Almirante Rosa Coutinho, aglutinando o próprio Emílio da Silva e o seu misterioso staff, o qual indiciava conotações de cariz político-partidário com uma qualquer central da esquerda comunista ou da extrema-esquerda de Lisboa, mais o Comandante Correia Jesuíno, patrão da Comunicação Social nomeadamente em Luanda, e também o Major Pezarat Correia que presidia à Comissão Coordenadora do MFA de Angola. Este grupo batia-se, sem sombra de dúvida, por um projecto de descolonização em que o principal protagonista seria o MPLA (…)”(p. 119/120)

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